O QUE LEVOU JESUS A SE AUTOPROCLAMAR ÁGUA E LUZ NA FESTA JUDAICA DAS TENDAS (JO7,1-2.10.25-30)

O QUE LEVOU JESUS A SE AUTOPROCLAMAR ÁGUA E LUZ NA FESTA JUDAICA DAS TENDAS (JO7,1-2.10.25-30)

 

Frei Jacir de Freitas Faria [1]

O texto sobre o qual vamos refletir hoje é Jo 7,1-2.10.25-30. Trata-se da festa judaica das Tendas, na qual Jesus se autoproclama como água e luz. Por que Jesus toma essa decisão de se revelar nessa festa? Qual o significado da festa das Tendas para os judeus e a sua relação com a atitude profética de Jesus?

A festa das Tendas ou Tabernáculos era celebrada seis meses depois da festa da Páscoa, nos meses que correspondem, no nosso calendário, a setembro e outubro.  Na festa das Tendas, os judeus celebravam, com a construção de tendas, a memória da passagem do povo pelo deserto, durante 40 anos, depois da saída da escravidão no Egito (Ex 15,22—40,38).  Ainda hoje, os judeus armam tendas nos telhados, terraços e calçadas das casas para celebrar esse evento. Abraão, Moisés, Lei (Ne 8-9) e a espera do Messias eram as temáticas celebradas na festa.

No tempo de Jesus, diariamente, o povo levava água da piscina de Siloé, lugar onde o cego de nascença se lavou, após Jesus ter colocado barro com saliva nos seus olhos (Jo 9,1-41). Siloé, que quer dizer ‘enviado’, ficava a 900 metros do templo de Jerusalém. Levar água ao Templo lembrava as “águas da salvação” (Is 2,3) e a profecia de Ezequiel sobre a água da salvação saindo do novo Templo (Ez 47,1-2) ou da nova Jerusalém (Zc 14,8). [2]

 A festa das Tendas terminava no oitavo dia com uma grande procissão de luzes, tochas e água (Lv 33,39: Ne 8,18). Durante a festa, o pátio do Templo permanecia iluminado com grandes candelabros. O cenário da festa era maravilhoso!

Jesus, que passou os últimos três anos de sua vida, segundo o evangelho de João, indo às festas judaicas e ao Templo de Jerusalém, para aí se revelar publicamente como enviado e Filho de Deus, não o faria diferente na festa das Tendas. Seus irmãos de criação, Tiago, Josetos, Judas e Simão, filhos do primeiro casamento de José, por não acreditarem que ele era o Messias, provocaram-no para ir à festa e aí se revelar. Jesus não aceita o desafio, mas vai, depois, secretamente. Ele estava sendo perseguido na Galileia. Para ele, seu tempo não era o de seus irmãos.

Na festa, a primeira atitude de Jesus não foi a de fazer milagres, como esperavam seus irmãos, mas a de ensinar no Templo. Ele fez isso no meio da festa. O povo murmurava dizendo que ele não podia ser o Messias, pois era conhecido deles. Jesus rebate dizendo que a origem do seu ensinamento vem de Deus. Revoltados, os mestres da Lei, os rabinos, queriam prendê-lo, mas não o fizeram, ainda que Jesus tivesse desacatado a autoridade deles. A hora da glorificação de Jesus ainda não tinha chegado, conforme a tradição do evangelho de João. Muitos do povo, no entanto, creram nele.

No último dia da festa, o da procissão da água e da luz, Jesus, não mais como o mestre, aquele que fala sentado, mas de pé, isto é, como profeta, toma a palavra e se autoproclama água que mata a sede dos que nele creem (Jo 7,37) e luz do mundo (8,12). O que levou Jesus a agir assim foi a certeza de que Ele era a água da salvação messiânica que os judeus esperavam. Ele era o novo Templo que substituiria o de Jerusalém, dominado pelo rigorismo da Lei e da salvação para poucos. A água que brota do Templo de Jerusalém era Ele, o Messias esperado. Na morte de Jesus, a água que sai de seu corpo tem esse mesmo sentido.

João escreve seu evangelho para uma comunidade de judeus que viviam entre os anos 90 e 100 E.C. Eles eram cristãos, mas mantinham um pé na sinagoga, um desejo de voltar ao rigorismo da Lei, ao modo piedoso de ser judeu.

Jesus se apresenta como Deus na forma de água que purifica, dá a vida, e de luz que ilumina os pés na caminhada. Como Deus que é luz, Jesus é o Deus-Luz feito carne, que nos levará de volta à Luz Eterna de onde viemos.

Para nós, hoje, o apelo de Jesus continua a nos interrogar: Que tipo de Igreja queremos ser, o da satisfação pessoal, do devocionismo ou o do comprometimento social? Onde está armada a nossa tenda? Como está o brilho de nossa luz? Que tipo de água oferecemos para matar a sede de Deus? São perguntas e perguntas que permanecem na festa das Tendas do século XXI.     

 

 


[1]Doutor em Teologia Bíblica pela FAJE (BH). Mestre em Ciências Bíblicas (Exegese) pelo Pontifício Instituto Bíblico de Roma. Professor de Exegese Bíblica. É membro da Associação Brasileira de Pesquisa Bíblica (ABIB). Sacerdote Franciscano. Autor de dez livros e coautor de quinze. Youtube: Frei Jacir Bíblia e Apócrifos. https://www.youtube.com/channel/UCwbSE97jnR6jQwHRigX1KlQ

[2]KONINGS, Johan. Evangelho segundo João: amor e fidelidade. Petrópolis: Vozes; São Leopoldo: Sinodal, 200, p. 206 (Comentário Bíblico).